KARMA YOGA

A gente é banda

É comum confundirem Karma Yoga com caridade, mas há uma diferença abissal entre uma coisa e outra. Pessoas ajudam pessoas por diversos motivos. Nem sempre as razões são nobres como se supõe. Uma atitude de solidariedade pode estar travestida de enorme vaidade. É cool ser do bem, dá ibope. Experimente postar uma foto sua em alguma rede social carregando no colo um bebezinho de um vilarejo paupérrimo no meio da África. À noite, quando chegar no hotel e deitar na sua cama queen-size com lençóis de algodão egípcio, seu post já terá um caminhão de curtidas. Mas a bebê estará lá, no mesmo lugar, no mesmo contexto, e esperando o próximo turista de Instagram.

A gente ajuda os outros também para aliviar culpa. Na conta-corrente que a gente mesmo cria pra si, nossos erros são entendidos como débitos. Quando essa conta tá no vermelho, e é comum que nos sintamos assim, é quase automático que se recorra a algum ato de bondade para “cobrir a conta”.

A solidariedade pode ter até, de forma velada, uma intenção de subjugar o outro. Ao doar algo a alguém pode ser que, inconscientemente, esteja-se querendo criar uma relação de hierarquia (e não de igualdade, como deveria ser). Nessa lógica, o ajudado é um ser carente, inferior. O ajudante está acima, sente-se superior.

Quantas vezes por dia a gente não se sabota? Sabe que determinado hábito não nos cabe mais e mesmo assim persiste nele. Muitas, né? Mudar dói. E um meio eficaz de negar essa nossa necessidade de ajuda é ajudando ao outro. Alguma coisa dentro de nós faz crer que socorrer alguém diminui a necessidade que temos de socorrer a si próprios.

Acho louvável quando vejo algum bilionário por aí doando parte da sua fortuna para causas beneficentes. Milhares, talvez milhões, de pessoas podem ser beneficiadas. Mas, assim como nas motivações que citei acima, onde havia um viés mais de capricho pessoal que de humanidade, aqui também não há Karma Yoga. A conexão permanece esvaziada. Ele dá aquilo que mais tem. Dá o que tá sobrando. Não há sacrifício.

Ajudar, mesmo que com intenções moralmente discutíveis, é sempre, claro, melhor que não ajudar. Mas o Karma Yoga, o acesso ao nosso eu divino, se dá em uma elaboração muito mais atenta do nosso compromisso com o outro. Exige, primordialmente, o entendimento de que não há essa separação. Não há o outro. Há ressonância tanto no que a gente faz por si quanto pelo próximo. No espetáculo da vida não há banquinho e violão. A gente é banda. A gente toca, a gente escuta. Por isso, generosidade é o ato de reconhecer no outro a nossa própria existência. Mesmo naqueles com os quais você pouco simpatiza. Tem você ali. Pular esse muro da falta de empatia pode te ajudar a descobrir coisa incríveis sobre si.

Sim, Karma Yoga é se solidarizar com o outro, mas sem distinção, sem vaidade, com sacrifício e, sobretudo, com vigilância.

Namastê.

Anderson Fornazari foi recém picado pelo mosquito da Yoga, trabalhou como redator e jornalista, e hoje se dedica à distribuição de alimentos naturais. Gosta de escrever, de fazer música, de conversas profundas e queijo branco com goiabada.


Categorias: Blog, Filosofia, Yoga

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